Fala alguma coisa e desliga o rádio!
porque eu me perdi

antes mesmo que pudesse ouvir,
tua triste música gringa
de despedida.

Cala boca e aumenta o rádio!
porque você se perdeu.

Mania maldita essa minha,
falando sempre de mais.

Perdi classe, chance, chave, coragem
quando você perdeu o controle
remoto como o mês de julho.

Maldita mania essa sua,
olhando sempre pra trás.

Perdidos talvez ainda
pudéssemos brigar
pela guarda da nossa bossa única.
mas é que o rádio,
também perdeu a pilha.

 
… nem deu tempo de ouvir a hora do Brasil.

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Namoradeiro

Parecia uma fotografia
debruçado na janela,
pendurado na parede,
perdido no tempo.

Ele era o Monaliso
da tela sem porta,
sem tinta, sem saída.
Debruçado sobre os óculos

sem saber se a chuva vinha,
se o alívio vinha, se o bonde vinha.
Num inquietamento tão quieto,

que se houvesse janela
era ele o namoradeiro
do meu retrato pendurado.

.

Ciranda

Foto: Cícero Fraga

Gastei minhas havaianas,
brincando de Hawaii Ana.
Perdi a conta, da conta!
mas eu dou conta,
só preciso de calculadora.

A minha razão foi flagrada
Arruaçando, arruaceira…
A rua acesa, e veja,
Nem coro mais.

Ah! prefiro passar da conta.
no descontrolar, me viro.
É como contar histórias,

Atento meu imaginário,
Vocabulário de caráter libertino.
Quantos gêneros, imagino,
Hão de compor

medos, dedos, anéis, fiéis!
oxítona eu sei. cantar:
“o anel que tu me deste”

Ainda na roda,
E minha cabeça girando,
Cito qualquer frase
De qualquer poeta latino.

“era vidro e se quebrou”
Nessa ciranda ninguém canta?!

Opa! O verso é meu.
Esta ciranda é nossa.
Mas por que só eu danço
e desatino?

eu amo, ando. desatino. recanto. danço.
e faço drama.
que é pra tu dizer que ama.
e cantar pra encantar.
é destino!

Falo de quem amo
Ou de canhamo. Invento
Conversa em roda murcha
E desabrocha uma fálica
Flor.

bem me quer.. mal me quer…
“o amor que tu me tinhas”
Essa ciranda não anda?!

Vamo, gente!
O meu ritmo é outro.
Mas não deixe a noite
Acabar.

Ah! cansei de brincar.
mas se quiser me achar,
vai ter que contar até 10.

 

 

Ana Carvalho e Cícero Fraga