.trovas

Era uma vez uma menina. Que era dele a “guria do tio”, e ela gostava. Do som, da voz, do sotaque, da sinceridade estúpida. Gostava da brincadeira ironia, e da força expressão!
Ele disse: “eu gosto de você também”. A guria sorriu.

Um dia, ele se foi… e despedidas não explicariam… no fundo ela sabia que o tio estava mais feliz assim. Sem ela.

O tempo passou… Assim sem quê nem porquê um dia ele voltou…
Ela fez perguntas que ele nunca soube responder. Então restringiu-se à promessa de não deixa-la mais.

Ele queria ficar ali… só ficar…
Porém algo o irritava, perturbava, incomodava, atordoava. E por mais que ele quisesse, não conseguira cumprir a promessa. Então ele de novo se foi. E dessa vez a guria o deixou ir. Abriu as portas, como quem abre o coração. e desejaria boa viagem, se ele tivesse despedido.

Então foram anos… talvez três, ou quatro… e três vivas pro orkut.
Ele disse: “me aceitou. Fraca!” Ela sorriu e disse: “eu gosto de você também”.

exagero expressivo

De tão vagabundo entende tudo. Sabe muito porquê viu de mais. Sabe nada! Como os que muito aprendem.

Sai batendo por aí, pra qualquer um na rua. Distribuindo beijos em outdoors. Caindo aos pedaços. dilacerado. esfarrapado. remendado. vagabundo!
Acelerado. abalado. sobressaltado. disparado. Vagabundo!

Bate por qualquer música vadia. por qualquer estrela bandida. rima perdida. Bate sem rebate. Pelo gosto de bater e de vagabundo ser.
Bate na mesa do buteco sem precisar dizer: “mais uma”.
Bate com gosto, vagabundo por profissão.

Açoitado por palavras cotidianas e pães dormidos amanhecidos com o dia, comidas italianas, bancas de crianças. E lá vai… vagabundeando pelo mundo. Batendo só por bater.
Gritando. berrando. sorrindo. gargalhando. chorando. morrendo. batendo!  pulsando!

Sangrando. pra lembrar que está vivo.
Vagabundo!

Engolindo tudo e vomitando pelas esquinas.
Mal comidas angústias, mal vividos amores. Vomita, e vomita. Depois sacode. E vagabundeia na busca do vômito de amanhã.

Ah vagabundo… se te arrancasse do meu peito, com todos teus amores mal cozidos. Passando pela garganta sentindo seu sangue, engolindo teu sacro fardo. Vomitar-te-ia. Desfaleceria e morreria. Porque sem tu vagabundo. Meu peito desmerece ser peito. Minha lágrima soluça sem chorar, meu riso não acha graça, meu canto não encanta. Sem tu Vagabundo… meu sangue esfria, minha retina desfalece, meus sentidos não opinam. Minha vida não vive, Minha morte não morre. Antes tu coração vagabundo. Do que a paz artificialmente colorida.

A Palo Seco

ê mundão arretado, véio e sem portêra. dos que vivem de brisa e dos que vendem ventilador. vendem de tudo. e tudo eles querem. lenha pro fogão e bíblia pro agnóstico.

do outro lado da janela, minha vitrola enguiçada. E ninguém vende agulha. ninguém é muita gente. ao mesmo tempo é ninguém. Será que alguém chama ninguém? ou vende algulha pra vitrola???

Não importa. Sei de cor o hino nacional e atirei-o-pau-no-gato. Coisas desimportantes do outro lado da janela. Aonde as crianças brincam com seus tamagoshis e minigames. Duvido que saibam rodar um peão, ou soltar uma pipa melhor que eu. Também não importa… talvez o vendedor de agulhas não passe hoje. Melhor tomar meu remédio pra reumatismo e sair da janela.

metade da mesma coisa

Sensibilidade e frescura cabem na mesma página do dicionário. Ambas choram em comercial de margarina e casamento de papagaio. Coisa de mulher. e de machista. Coloca isso no copo, e bebe sem fazer careta. A mesma coisa duas vezes deve ser forte. Dose dupla, pra quem aguenta o tranco. uma. duas. três. mais de seis da manhã. “com mel e limão?” deixa de ser fresca! tem que ser puro.

Vira isso. bebe você dentro desse copo. metade sensibilidade, metade frescura. força na peruca. porque lá vem de novo o maldito comercial de margarina.

eu fico cá sem entender
nem desentender..
só confundindo, desembaraçando
as coisas que se embaçam na frente dos olhos
malditos olhos
doem quando a consciência pesa
quando bato o pé, e grito
pesa.
e sempre pesa.
e sempre grito.
dói.

eu já não sei das horas
tomei tanto café
que nenhum remédio pode ser mais tarja preta

eu queria agora dormir e esquecer
dormir e acalmar
dormir e acordar pra mim

porque hoje, eu quero ser tudo
menos a mim

Solidão em Sociedade

Eu ando por aí, como quem segue os sapatos, sem querer chegar, nem nada. Olho pro chão, mas não sinto, nem nada. Ando como quem foge do fim do mês, ou luta contra o luto. Quem trava uma batalha vã, pra sempre vai se orgulhar antes das 6:00.

Eu ando sem razão, nem chão. Sobre confetes e flores. cartas e promessas. Que nunca escrevi, que nunca cumpri. A sentença culpa, o vento desculpa.

Pelo mundo. todo mundo é peça. O Padeiro, empurrando o carrinho buzinando incessantemente, vendendo pão de ontem por hoje, comprado por uma nota suja da senhora descabelada de mãos dadas com a criança amarela sorridente sem dente. Recebe o troco e troca pelo algodão doce, sem doce, nas mãos da menina mais sorridente.

Vinte e dois anos em passos perdidos. Certezas incertas. brigas discretas. lágrimas cantadas. roupas no varal. prendas de rifa. dias de quermesse.

Enquanto o velho toca gaita, eu ando… e vejo a vida passar. por onde passo.