o disco

Olhou a gaveta por um tempo. E a memória lhe veio como navalha, naquela noite fria e de pouca luz.
Havia prometido a si mesma, não destrancar o que não se lembrava. Mas era só curiosidade! Ela saberia ser forte. Sabia mais…

Tossiu ao soprar o pó. E sentiu uma fincada no peito. Algo além da poeira a comovia e incomodava. Em um lapso tão curto feito a linha entre o real e o abstrato.

Adentrou a sala de vagar, olhou a vitrola meio sem jeito e nenhuma certeza. Trajava branco, e trazia o disco nas mãos. De tão velho se esmiuçava aos poucos… e ainda tocava. Com a força de quem tem coragem. Era a mais feliz e suave melodia sobre liberdade. Pouco sabia de sofrer, a portadora do velho disco de música gringa.

Ouviu as músicas sem chorar. E toda trajetória do disco lhe veio à mente. Talvez quisesse esquecer, e chorar, e rir, e dormir. Mas fez o que lhe era cabível. Fechou a gaveta. E desejou se alegrar em esquecer o disco.

“Em tempos como estes,
Em tempos como aqueles,
O que será será,
E assim vai…

E sempre vai e vai,
E vai e vai…

(…)

E sempre haverá paradas e idas,
E rápidas e lentas,
E ação, reação,
Paus e pedras
E ossos quebrados,
E aqueles pela paz e aqueles para a guerra.

(…)

Mas de alguma forma eu sei,
Não será a mesma coisa
De alguma forma eu sei,
nunca será a mesma coisa…”

Times Like These – Jack Johnson

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janelas grandes, e fechadas.

Era um chinelo gasto, era uma tarde, e uma casa. Tão grande, maior que os anos e a vida. Caberiam todos os amigos, discos e livros. Mas bastavam eles, os poucos amigos, o baralho e o CD eprestado pelo caseiro. “Música caipira da boa!” afirmou sem pestanejar ou levantar a cabeça.

E ninguém se arrisca a sair da cozinha. Tão grande, e ainda sobravam lugares à mesa… a maior mesa. Porque a comida sempre foi pretexto. O cheiro do café e a prosa boa de quem entende da lida, da doma e da vida. Isso! é o que nus alimenta.

Se fizer frio… tem um fogão à lenha, chocolate quente e bons amigos. E quando o vento soprar forte…. corre! pra varanda com vista pro infinito. Escolhe o cavalo mais lindo e vai junto, pra onde o vento for… só pra ver quem corre mais. Depois deixar levar… os cabelos e a perfeição.
Quando chegar na cachoeira… toma cuidado. Na volta, me traga a pedra mais linda que houver. Por hora, tenho algumas.

Quando chegar a noite… o café, as infâmias e a pinga estarão em perfeita simetria. Provavelmente o relógio não se lembrará disso amanhã. E muita gente, nunca vai esquecer. Aquela casa, longe da cidade… tão perfeita, como o caderno.
Que a amiga provavelmente resgatou. Se não tiver feito. Não a conheço mais…

em outra tarde e outra casa, a gente continua o caderno…
enquanto houver bons amigos, e café.

Talvez nunca tenha sido a casa da fazenda…
e só o cenário de um poema. O mais lindo poema…

cigarro

Se você ficasse aí para sempre. Sem se mexer, sem me tocar.
se ficasse… e não falasse, nem me olhasse. só ficasse.
se o cigarro apagasse. e a fala faltasse.
Então dormiria sobre tua cartola largada no chão.
não precisaria das histórias manuscritas em livros infames.
Por um tempo esqueceria que o cigarro acende tua solidão.

Os mortos sabem mais que os vivos
sabem o gosto que a morte tem.
Meus pés frios… não tem medo do escuro
amenizado pela brasa do cigarro aceso
queimando eternamente.

O quarto acaba,
a fumaça vai…
Se chegar a hora…
e morrer sem sangrar.
Os segredos queimarão por quem?
Não creio em santos e poetas
perguntei tanto e ninguém nunca respondeu…

Antes do silêncio quebrar
e da marcha fúnebre tocar
espera o chão refletir o sol.
senhor do cigarro aceso

feche a porta quando sair
porque fica frio
e escuro
sem tua chama.

Além do que se vê.

um, dois, três.

Quem errar que conte outra vez. Sem se esconder, achar! e gritar bem alto… depois girar, e girar, e girar.
Se parar.. não lembrar, e soprar a flor que vira vento. Se levar embora… ir… fechar a porta, guardar o baralho, revelar a fotografia, tirar o chinelo do lugar e a saudade da geladeira.

Quando a bolha de sabão estourar. Todas crianças vão gritar, vão chorar, vão lembrar, vão saber…. que foi. Pra onde ninguém viu.
Se escurecer, vão se embriagar e esquecer. da música, da porta, do vento, da bolha.

um, dois, três

quem caiu levante outra vez.
E digam as horas! o dia! o mês! Falem das cores, dos cabelos, da sanidade.
Cantem a música, no tom da cor… do asfalto molhado, das luzes que ofuscam… e dançam embaçadas, bem depois… do arco-íres, e das luzes. Que não sabem muito além da metafísica de existir.