reticente

um café.
o termômetro abaixa, cronômetro zera, bandeira sobe. luzes apressadas atravessam a afonso pena. crianças olham, velhos choram, eu esqueço, e fotografo.
todos meus órgãos conspiram em silêncio. o livro perdi. telefone não toca mais. eu sempre perco tudo. amanhã tem jogo do galo.
van ligou: “estou com seu ingresso na mão”. sei qual mão não. telefone não toca mais.

outro café.
locadora fechou. bateria carregou. o chocolate, comi. e rodrigo não escreve mais.
perdi o sono. esqueci remédio pra dor de cabeça, e a cabeça saiu de mim. eu sempre perco tudo. amanhã vou pra casa da rita.
meu incenso queima, minha máquina não escreve, minha vida morre.

café esfria.

A Fita.

A fita acabou.
Tentei o auto-reverse, durex, cuspe, até oração. Falei baixinho: “não acaba, escreve. não acaba, escreve.” Fita surda. ainda pulsa, e tenta. sem cor, sem tinta. Pedindo pra morrer, diluindo aos poucos, recusa meu sangue, arranca meu pulso. Morre aonde eu posso tocar.

Ainda bato. ensurdeço. tento. enlouqueço. espero. por suas palavras apagadas, sem a intenção de ser… pulso, máquina, tinta. nada.
Ainda pulso, sem cor. nem moral.

calo.

é… não tem jeito.
tenho que ir no Maleta comprar outra fita.

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Domingo

Domingos…
pra que servem afinal? nostaugia das besteiras de ontem, ou preguiça de amanhã?
Pra mim domingo é dia de acordar cedo, porque é o dia em que todos estão em casa, tornando impossível o sono de meio dia.
Logo chegam os amigos, primos, tios, sobrinhos, filhos de amigo… aquela barulhada toda, tão tradicional de domingo.
Como toda boa família pobre, domingo é dia do “churrasco de domingo”, na lage. Certamente. Com a irmã de biquíni pra pegar um bronze, o cunhado carregando todas as coisas que ninguém ta afim de carregar. A Cássia, que madruga com o Lucas, pra filar o café e achar um parceiro menos azarado que ela, pra jogar um buraco.
A prima Heloísa, falando mal da dieta que nunca funciona, enquanto abre as panelas. O telefone que não pára. O rádio do meu pai, na Itatiaia, com os pré comentários do jogo desta tarde. A Heloísa então muda de assunto, e começa a falar mal do namorado. Termina sempre com um suspiro “… ai, como é lindo meu príncipe”.

Melhor que domingo, só domingo com chuva e frio. Então corro na locadora, alugo filmes na ficha de alguma amiga minha. Compro nutella e doritos na padaria. Corro pra casa, como quem corre do frio, ou para ele.
Tiro sapatos, roupa. Fico de calcinha e visto blusa de moletom, roubada no guarda-roupa do irmão, o único que sai cedo pra namorar e só volta a noite.
Blusa enorme, que faz com que eu me sinta pequena, e protegida.
Daí eu esqueço das pessoas na lage. Tranco-me na sala, com o controle remoto, um monte de travesseiro, um cobertor. Gosto dos filmes europeus… Com doritos, sprite, nutella e domingo.

Ai o domingo.

Eu fria, gelada.
Engolida pela caipirinha sem gelo.
Descabelada, desesperada

Sem sentido.
sem gosto, batom ou relógios
sentindo leve,
a mão dele…
quente, forte, muda

Descendo minha nuca,
tirando minha alma fora.
arrancando o pouco de mim.
O resto do que sobrou.
no copo.
 

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três

Somos, dose tripla, as vezes mais, sempre mais. Isaciáveis, com a câmera nas mãos, somos deus. Fotógrafos. matamos e imortalizamos, o que encantar.
18:00 na cafeteria, somos sobra, sensibilidade, papel, chocolate italiano, caneta, falta não, prosa não. Era de poesia o livro que dei a ela, e ele, deu-me uma caixa de música clássica.
21:00 no Maleta, nunca sabemos, se somos gays ou putas. Sabemos pouco, queremos menos, brindamos mais. Somos.
Três, canecas vazias, sonetos, escândalos discretos, amigos, amores, cartas, estômagos e tripas, que sangram.

vozes

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por que é que vocês choram?
o que é que vocês querem???
se é que sabem, se é que querem.
por que é que vocês choram e não me deixam?
por que é que não me deixam dormir?
será que vocês podem calar a boca?!

tetetiti

tetete tititi
patati blablabla
tete fany
uma dose, outra, outra, outra.
bola 8!
caçapa cheia.
copo vazio.
corpo firme!
outra dose!

carioca, paulista, mineira
qual o sotaque?
esqueceu de sorrir?
é pirraça.
pô, uai, meu!

mima a carioca paulista mineira
de tete a fany,
ritmo, sangue, suor, suing,
herbes, bière, étreint
très amis, venez ici!!!
toquem um funk.
que é pra menina sorrir.